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Gisele Leite - Articulista
Área do Autor

Professora universitária há mais de três décadas. Mestre em Filosofia. Mestre em Direito. Doutora em Direito. Pesquisadora-Chefe do Instituto Nacional de Pesquisas Jurídicas.

Presidente da ABRADE-RJ - Associação Brasileira de Direito Educacional. Consultora do IPAE - Instituto de Pesquisas e Administração Escolar.

 Autora de 29 obras jurídicas e articulista dos sites JURID, Lex-Magister, Portal Investidura, COAD, Revista JURES, entre outras renomadas publicações na área juridica.


Artigo do Autor

Efeitos de F.O.M.A – Fear of Meeting Again (O medo de reencontrar)

Autores: Ramiro Luiz P. da Cruz

             Gisele Leite

 

Há mais de um ano, o planeta se vê dominado por uma pandemia que surgiu, tendo como consequência a morte de milhões de pessoas, independentemente de cor, sexo, raça e credo ou classe social.

Em contrapartida, a humanidade sobrevivente e atuante, desenvolveu métodos de enfrentamento dessa doença. Medidas sanitárias foram introduzidas com intuito de prevenir e diminuir sua propagação do coronavírus.

Dentre essas medidas, as práticas individuais foram estimuladas, como o uso de máscaras faciais e escudos faciais (face shields), uso de álcool gel para desinfecção, principalmente, das mãos e o isolamento social, sendo este o mais penoso para a população.

Partindo do princípio de que o homem é um ser gregário, que se entende por viver em sociedade e, nela, exercitar a interação diária, estar isolado é a absoluta contrariedade de tudo que se fala do convívio social, haja vista que a aglomeração é absolutamente proibida como forma de evitar a proliferação do vírus.

Uma vez inevitável, essa mudança forçosa de comportamento, a princípio, causou desdobramentos diversos, como conflitos familiares, estresse, depressão que, supõe-se, sejam consequências da falta de interação social... quase uma síndrome de abstinência.

Famílias foram desfeitas não só pela morte de seus entes, mas, também pelo contato direto ininterrupto diário de seus entes. Casais convivendo diariamente por longos períodos, deixaram que seus espaços fossem invadidos, ficaram incomodados, deixaram estagnar o relacionamento até que essa convivência se tornasse insustentável, decidindo, por fim, pelo divórcio.

Em relação aos filhos, apesar da modalidade de aulas online ter sido utilizada como forma de evitar uma interrupção no processo de aprendizagem, a convivência com eles se tornou outra penitência. Há aqueles que relataram de descoberto que não gostavam de criança, após tê-los parido há mais de dez anos. Fez-me lembrar Carlos Drummond de Andrade quando disse “Filhos, filhos... por que tê-los? Mas, se não tê-los, como sabê-los?”.

Mas, nem tudo é calvário, lágrima e ranger de dentes. Diante das limitações impostas pelas ações de enfrentamento da pandemia, diversas pessoas procuraram, com grande criatividade, ocupar o tempo ocioso forçado que lhes era imposto.

Descobriram outros talentos pessoais como as artes, meditação, design de interiores, começando pela própria casa, ou até mesmo, mudaram-se dos centros urbanos para lugares mais isolados no interior. Dizem que descobriram que o viver consigo mesmo, através desse exercício diário, não é ruim, ao contrário, lhes dando a verdadeira sensação de liberdade que não experimentaram por muito tempo, é tocar o próprio tambor, sem incomodar o vizinho.

Esse estado de solitude, considero, mais um efeito do isolamento social, quase como um efeito colateral de um medicamento. Atuando como efeito inverso, a solitude poderá se tornar um empecilho para o retorno das antigas interações sociais.

Imaginemos as pessoas preferindo ficar isoladas, “no seu cantinho, de boa” do que aglomeradas, interagindo como no período antes da pandemia?

Já existe nome para isso: F.O.M.A (Fear of Meeting Again) – o medo de reencontrar. Sugere uma visão pós-apocalíptica? Talvez, mas, é uma possível consequência do exercício da convivência consigo mesmo, das plantinhas que cultivou, dos passarinhos que alimentou, do violão que aprendeu a tocar, dos quadros que pintou, dos pães que aprendeu a fazer, até do medo de panela de pressão que foi extirpado como ato heroico.

Ninguém sabe quando tudo voltará como era antes da pandemia... talvez nunca mais, pois, sempre haverá um procedimento novo ou o pavor veio para ficar, ou nada disso. A isto, alguns já alcunharam de “novo normal”.

O certo é o futuro incerto. Tudo depende de como as ações e medidas para o enfrentamento da pandemia sejam realizadas, o negacionismo seja extinto e os governantes tenham o entendimento da cooperação.

Talvez seja necessário apenas cativar maior empatia e solidariedade e, entender que a mera distância física, não significa falta de afeto nem indiferença.

Enfim... pego minha banana, sempre fazendo homenagem, e passo a degustá-la, pensando no porvir.  Enquanto reflito sobre os dias contemporâneo, busco nutrição de potássio da banana...

 

 

 

 

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